Conto: Menina do Ônibus


Menina do Ônibus

   A noite cai, deito em minha cama, e mais uma vez não consigo tirá-la da mente, não consigo tirar a imagem daqueles lindos olhos, olhos castanhos escuros, iguais aos meus, mas olhos dos quais vejo sofrimento, olhos dos quais já viram muitas coisas ruins. Mas nada disso tirou o seu olhar sereno, de moça, de menina.
   Primeiro dia de trabalho, ainda meio confuso com tudo. Saí de casa as pressas, acordei atrasado, infelizmente. Contudo, consegui chegar a tempo. E lá se vai meu primeiro dia, agora é 14:20, estou indo pra casa, as coisas não foram tranquilas, tudo saiu do jeito que eu esperava que fosse.
   Cansado e de saco cheio, me sento no primeiro banco livre do ônibus, literalmente o primeiro banco, achei que seria mais confortável, afinal era somente eu na parte da frente do ônibus, e eu... não sou muito social, e por isso como de costume, sempre escutando música, e o som que havia escolhido aquele dia foi  “Heros” do cantor “David Bowie”, que infelizmente viria a falecer meses depois.              Estava disperso de tudo em volta, olhando pela janela, vendo as pessoas que andavam na calçada e tentado imaginar o que pensavam, sentiam, ou o que fazia com que suas vidas seguissem em frente, seriam objetivos profissionais, espiritualidade, amor pela família ou pelos amigos talvez? Isso também me fez pensar no meu objetivo de vida, se algum dia eu entraria na faculdade, no curso de psicologia para ser mais específico, do qual sempre tive vontade, mas diante das situações inusitadas da vida, tive que seguir outros caminhos.
   Me perco em pensamento, distraído, levo um susto quando a porta do ônibus se abre, como de costume, para os passageiros entrarem, e de repente vejo a silhueta de uma moça, que devagar sobe os degraus da entrada, em seguida dá um lindo sorriso ao motorista, e lhe deseja uma “boa tarde”, seu olhos eram castanhos, seu cabelo castanho escuro era curto, e ia até a altura dos ombros, ela era a menina mais linda que eu havia visto até aquele momento da minha vida, parecia até cena de filme de romance adolescente, gênero do qual nunca tive apreço. Ela logo se assenta no banco atrás do meu, e então pelo reflexo do vidro que estava a minha frente, eu percebi que o olhar daquela moça era diferente, não sei como, mas seu olhar era diferente de tudo o que eu havia visto até aquele momento, e eu maravilhado com tão lindo olhar, acabo me perdendo em seus olhos e não vejo que ela também me olhava, quando percebo, viro rapidamente a cabeça para a janela e disfarço, mas ela percebe e dá um pequeno sorriso, o que me deixou ainda mais vermelho naquele momento de constrangimento. Mas enfim, algo havia me chamado a atenção naquele simples olhar.
   O ônibus enfim chega ao terminal e nós dois desembarcamos no mesmo lugar, mas eu seguia para casa a pé, enquanto ela sentava no terceiro banco, ao lado direto do ônibus que havia nos deixado lá, para enfim pegar outro e ir ao trabalho. E como eu sei que ela ia para o trabalho? Porque ela vestia uma camiseta azul, igual a minha, mas de marca de empresas diferentes, e acho que ela deveria trabalhar como vendedora ou na área administrativa, pois ela sempre estava bem vestida, ela sempre estava linda.
   Acordo no dia seguinte, é 6:30, estou exausto, pareço um zumbi, depois de ficar a noite inteira escrevendo, aliás, um dos meus “hobbies” é escrever.
   O segundo dia de trabalho foi normal, e é claro, não é o que gosto de fazer, afinal pretendo cursar psicologia e trabalho em uma metalúrgica, mas... vivemos em um mundo que gira em torno do capital, então precisamos trabalhar.
   Novamente rumo a minha casa, espero o ônibus, ele chega, entro, e me sento novamente na primeira cadeira, e mais uma vez aquela menina entra minutos depois. 
   Cada dia que passava e eu a via, algo me tocava por dentro, do qual me inspirava.
   Os dias se passavam e eu sempre a via no final do dia, e eu sentia dentro de mim de que precisava falar com ela, nem que fosse um “com licença moça!” ou um “ bom dia!”.
   Novos dias vieram, e ela ficou uma semana sem vim, o que achei estranho, e até meio deprimente, pois aquela era a única hora boa do meu dia, no qual ao som de uma boa música, eu a via.
   E então, quando foi em uma quarta-feira, ela finalmente apareceu, mas algo nela me deixou magoado, ela tinha algumas marcas no braço, como se fossem marcas de batidas feitas por algum instrumento cortante, e um pequeno corte nos lábios, e naquela hora, eu havia percebido que de fato o olhar das pessoas não mentem, e ela realmente passava por algo ruim, e no meu medo de incomodá-la em um momento como aquele, com uma pitada de tristeza, eu nada falei a ela. Mas sim, eu gostaria de ter perguntado a ela o que teria acontecido, ter dado um pedaço de mim naquela hora para ao menos confortá-la, mas não fiz nada, nada...
   Os dias se passaram, havia feito um mês de trabalho já, e parece que... por eu ter pego todos os dias o mesmo  ônibus e ter reparado sempre naquela linda moça, eu havia construído uma história com ela. Até parece que éramos velhos amigos só pela troca de olhares. Os hematomas estavam desaparecendo, o que me fazia ficar mais confortável, imagina ela então?!
   Mais um mês de trabalho passara, completei 2 meses, 2 meses se encontrando com ela naquele mesmo ônibus, naquele mesmo horário e ponto em que ele passava pegá-la. Minutos antes do ônibus chegar na parada em que ela o esperava para ir ao trabalho, eu pensei que aquele seria o dia para finalmente conversar com ela, eu finalmente conversaria com a menina cujo o olhar me apaixonara, a menina que me visitava quase todas as noites em meus sonhos acordado, hoje seria o dia. Então o ônibus passa em seu ponto, mas infelizmente ela não estava... a menina não estava lá parada como sempre. Pensei então, pode ser que ela falte alguns dias como ela fez à um mês atrás, ou ela tenha entrado de férias quem sabe...
   Os dias se passaram, nada da menina de lindo olhar aparecer no seu respectivo ponto, e aí comecei a me perguntar o que havia acontecido, para ela faltar tantos dias assim, minha mente começou a desenvolver diversas teorias do fato.
   Foi numa segunda feira então, que fui ao trabalho, enfim, a mesma rotina de sempre, e naquele dia ela não apareceu novamente, justo quando eu havia me decidido falar com ela. Cheguei em casa meio deprimido, esquentei o meu almoço como habitual, e me sentei no sofá pra assistir televisão, como de costume, e então eu vi, a foto dela em um jornal na televisão, enquanto o repórter falava sobre a matéria: “corpo de garota de 19 anos é encontrado enforcada em seu próprio quarto, a polícia científica concluiu a investigação apurada no local e foi constatado que a causa da morte foi por suicídio, segundo informações dos... ”. O meu prato foi ao chão, em um som seco, meus ouvidos se desligaram para tudo que estava em volta, enquanto meus olhos choravam e ao mesmo tempo encaravam a foto dela na televisão e então me dei conta de que aquela era a realidade e que não havia forma de escapar. Eu fui tão estúpido... se... se ao menos eu tivesse dito algo a ela... se ao menos eu tivesse sentado do seu lado, dito um bom dia seguido de um sorriso... se ao menos eu tivesse me aproximado dela e perguntado como ela estava, talvez nada disso tivesse acontecido.
   A noite chega, e com ela um vazio imenso, uma dor profunda, choro desesperadamente, mas abafando o choro no travesseiro para não acordar meus pais, meu mundo mais uma vez, desaba em lágrimas...
   
   Anos se passaram, estou na minha própria casa, tenho uma família agora, uma ótima esposa, dois lindos filhos e meu consultório de psicologia.
   Mas a noite cai, deito em minha cama, e mais uma vez não consigo tira-lá da mente, não consigo tirar a imagem daqueles lindos olhos, olhos castanhos escuros. Seu olhar sempre vai estar em minha memória, seu olhar sereno, de moça, de menina.
 “Boa noite menina do ônibus!”
                      Wesley San Peixoto

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